
Se na ficção científica as máquinas inteligentes aparecem quase sempre como uma ameaça mortífera para a humanidade, no mundo real elas têm sido trabalhadas na área da saúde com uma missão diametralmente oposta: salvar vidas. É neste contexto que está uma pesquisa promissora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP . O estudo busca utilizar inteligência artificial (IA) para auxiliar no diagnóstico do câncer bucal.
“A ideia é criar um software para que o dentista ou o médico tire uma foto com o celular da lesão bucal e o programa diferencie se aquela lesão é potencialmente maligna ou se ela tem um aspecto de benignidade”, projeta Mattheus Siscotto Tobias, autor da pesquisa Redes neurais convolucionais para diagnóstico clínico de câncer bucal.
O estudo começou a ser desenvolvido no mestrado dele, com orientação do professor da FOB Paulo Sergio da Silva Santos. Agora, o trabalho, que tem parceria da Faculdade de Odontologia (FO) da USP e da Ciência da Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, segue no doutorado de Mattheus Tobias, de olho na importância do diagnóstico precoce do câncer de boca.
“Dados internacionais apontam que há 400 mil novos casos de câncer bucal por ano no mundo. No Brasil, são de 22 mil a 23 mil novos casos por ano. E, quando falamos de câncer bucal, o diagnóstico precoce é fundamental para diminuir a mortalidade, para a qualidade de vida do paciente e para diminuir custos do sistema de saúde”, destaca Santos.
O professor, que trabalha com pacientes com câncer bucal no Centro de Pesquisa Clínica da FOB e também no Hospital Estadual de Bauru, revela que os casos têm chegado com nível de estadiamento (estágio da doença) muito avançado para o tratamento, o que aumenta consideravelmente o índice de mortalidade. “Diante disso, é fundamental que a Atenção Básica consiga fazer esse diagnóstico de uma maneira mais precoce. Então, nossa ideia é fazer um software que possa ser usado na Atenção Básica para essa finalidade”, complementa.
Sempre que se fala em IA, fica a pergunta: existe o risco de os profissionais serem substituídos por essa tecnologia? Segundo os pesquisadores da FOB, a resposta neste caso é simples e direta: não. A IA seria uma importante aliada dos médicos e dentistas da Atenção Básica nesse processo de diagnóstico.
E esse é o caminho mais razoável que a inteligência artificial – e o uso dela – vem tomando no mundo da ciência. Para o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Glauco Arbix, um dos mais influentes pesquisadores da área, é preciso se pensar sempre em “humanos mais máquinas, e não em máquinas no lugar dos humanos”.
“O gênio saiu da lâmpada e não tem como pôr ele de volta. A IA está aí pra ficar. Para o bem e para o mal. O mais razoável é usar a IA e deixar sua marca nela”, ponderou Arbix, em palestra no curso da USP Divulgação Científica para Comunicadores e Jornalistas, uma parceria entre a Escola de Comunicações e Artes (ECA), a Superintendência de Comunicação Social (SCS) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA).
E, para “deixar a marca” com a IA de um modo que possa salvar vidas, os pesquisadores da FOB usaram um banco de dados com mais de 6 mil imagens de câncer bucal e outras de lesões não malignas, ensinando a rede neural a diferenciá-las. A partir disso, softwares analisaram todas essas fotografias tentando “acertar” o que era câncer e o que não era. E o resultado impressionou: uma acurácia de cerca de 80%.
Depois de feito esse “aprendizado da máquina” no mestrado, agora, a análise está sendo aprofundada e validada no doutorado. “Pegamos o banco de imagens com lesões malignas e não malignas e submetemos a 50 experts em câncer bucal de todo o Brasil para que eles analisassem o que era câncer e o que não era. Agora, vamos confrontar as respostas dos experts com as respostas da máquina”, explica o professor da FOB.
A previsão é de que a pesquisa se encerre no segundo semestre de 2026, mas os achados já são considerados muito promissores pelos pesquisadores. Inclusive, já há artigo publicado sobre o trabalho, com boa repercussão, e outros encaminhados para publicações em revistas internacionais.
“Também apresentamos esse nosso estudo em setembro na 29ª Reunião da Academia Iberoamericana de Patologia e Medicina Bucal, na Argentina, e vencemos como melhor pesquisa na categoria pôster”, conclui Tobias. Integram ainda a pesquisa Celso Lemos Junior, da FO, João Paulo Papa, Marcos Cleison Santana e Rafael Gonçalves Pires, da Unesp.
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