
Abacaxi, couve e gengibre com água de coco; couve, pepino e maçã, também com água de coco. Esses e outros sucos e alimentos conhecidos como “detox” costumam ser consumidos por quem procura “limpar” ou desintoxicar o organismo. Mas será que isso é realmente eficiente?
Patrícia Campos Ferraz, nutricionista da Faculdade de Saúde Pública da USP e mestre em Ciência dos Alimentos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, explica que, “do ponto de vista científico, esse conceito é impreciso, pois o nosso corpo já possui sistemas altamente eficientes de desintoxicação, principalmente o fígado, os rins, o intestino e a pele. Esses órgãos atuam continuamente, metabolizando e eliminando substâncias potencialmente tóxicas, sem necessidade de alimentos específicos para isso. Trata-se de um modismo sem respaldo clínico”.
Por esse motivo, o consumo de detox é visto com cautela pela comunidade científica, destaca a nutricionista. Até o momento, não há evidência científica robusta que comprove que dietas detox promovam a eliminação de toxinas além do que o corpo já faz naturalmente.
A maioria dos estudos disponíveis é limitada, com amostras pequenas e de baixa qualidade metodológica. Por isso, as principais revisões científicas classificam o detox como um modismo com mais apelo comercial do que respaldo clínico.
A professora explica que o consumo de detox pode, a princípio, parecer eficiente na perda de peso. Isso geralmente está relacionado à restrição calórica e à perda de líquidos, e não à eliminação de toxinas. “Esse efeito costuma ser temporário e pode ser seguido de recuperação de peso. Portanto, não é uma estratégia eficaz nem sustentável para emagrecimento.”
Existem várias abordagens chamadas de detox, como sucos, jejuns prolongados, dietas líquidas, exclusão de grupos alimentares e uso de chás ou suplementos. No entanto, nenhuma dessas estratégias tem comprovação científica sólida de eficácia na desintoxicação do organismo.
Apesar de não ser reconhecido por eliminar toxinas, o consumo de alimentos chamados detox pode apresentar efeitos positivos. Alguns benefícios relatados não vêm do detox em si, mas de mudanças alimentares mais saudáveis, como o aumento do consumo de frutas e vegetais e a redução de ultraprocessados. “Esses hábitos, sim, têm forte evidência científica de melhora na saúde metabólica”, afirma.
Dietas detox muito restritivas podem causar diversos danos ao organismo, enfatiza a nutricionista. “Elas podem levar a deficiências nutricionais, perda de massa muscular, hipoglicemia, tontura e até alterações eletrolíticas. Além disso, podem aumentar a chance de compulsão por alimentos altamente calóricos após o término da dieta. Em alguns casos, também podem atrasar o diagnóstico ou tratamento de condições médicas ao criar uma falsa sensação de limpeza no organismo.”
A professora destaca que não existem indicações clínicas formais para que pessoas saudáveis consumam alimentos ou líquidos detox. “O que a ciência recomenda é manter um padrão alimentar equilibrado, rico em alimentos in natura, com boa hidratação, sono adequado e prática de atividade física. Isso, sim, apoia os sistemas naturais de desintoxicação do organismo, sem necessidade de dietas restritivas ou modismos”, conclui.
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