
Os padres da Diocese de Catanduva, região de Rio Preto, estão revoltados com o bispo da região, Dom Valdir Mamede, que determinou o desconto mensal de R$ 300 do salário dos 47 padres. Dom Valdir, justifica que a Diocese precisa pagar a indenização de R$ 210 mil, que pode chegar a R$ 500 mil por ter sido condenada a pagar a uma jovem que sofreu abusos sexuais por um padre que, para revolta geral, ainda comanda uma paróquia. A jovem tinha apenas 11 anos quando foi abusada. Quem não contribuir pode ser transferido e até afastado das funções eclesiásticas.
O bispo decretou uma “contribuição compulsória” de R$ 300 por mês. No total, serão arrecadados compulsoriamente cerca de R$ 12 mil por mês. A Cúria e o padre Osvaldo Donizeti da Silva, o "padre Barrinha" foram condenados e terão de pagar.
O juiz que condenou o pároco e a Diocese entendeu que o acusado agiu em nome da igreja. Mais tarde, o padre teve a pena de 9 anos extinta, pois o Tribunal de Justiça converteu o crime de estupro de vulnerável para a contravenção penal de importunação sexual.
A "contribuição compulsória" se aplica aos 47 padres da Diocese. Só tem duas condições para o padre não contribuir, segundo decreto do bispo: se for aposentado ou sofrer doença grave ou padre que seja responsável por alguém da família doente. Cada padre recebe por mês R$ 2,7 mil por mês de salário. A ordem do bispo foi dada através de áuduios pelo Whatsapp, que o Diário teve acesso com exclusividade.
Em um dos áudios, Dom Valdir diz que a contribuição dos padres é necessária, porque os R$ 210 mil, com correção monetária e custas processuais, sobe para R$ 500 mil. O bispo diz que há, inclusive, um fundo financeiro iniciado, com dinheiro da Cúria e do padre Barrinha.
“Nós somos convidados, por dez meses, a contribuir com R$ 300, para que nós consigamos o valor suficiente para poder pagar o resultado que for fixado em segundo grau, para indenização, caso não haja recurso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ)”, diz o bispo no áudio.
“Aqueles que não puderem contribuir, façam chegar através de uma carta motivada, que diz “eu não posso contribuir por esse motivo ou eu não quero contribuir por esse motivo”. Então, os casos, nestas possibilidades, serão analisados por mim e pelo ecônomo e vigário-geral da diocese”, diz o bispo na mensagem.
A IRA - Alguns padres que falaram sob anonimato, temendo represálias, afirmam que não acham justo que todos sejam obrigados a pagar pelo que apenas um sacerdote fez."O padre Barrinha pecou e, pela Cúria, todos nós somos culpados?", questionou um deles.
Outro pároco disse que é contra a contribuição "já ganhamos uma ninharia, um salário vergonhoso e, por culpa de alguém que se entregou ao pecado da luxúria os demais pagam a mesma penitência. Isto é justo?", perguntou revoltado.
LUXÚRIA - Os abusos do padre Barrinha foram 2013, na paróquia do município de Sales, vizinho a Catanduva. Foi durante um ato de confissão que o padre Osvaldo Donizete da Silva teria abusado sexualmente de uma menina de 11 anos. Mais tarde, com medo, a garota contou à família que procurou a Polícia.
O padre ficou na cadeia de Novo Horizonte, mas foi libertado após o Tribunal de Justiça converter de crime de estupro para importunação sexual, que é contravenção. Ele havia sido condenado a nove anos e quatro meses.
Para uma dos padres revoltados com a cobrança, o bispo "é o diabo em pessoa. Ele é mau, cruel...", afirmou. Os padres dizem que durante a pandemia, em meio às dificuldades financeiras, o bispo também teria determinado a "contribuição compulsória" para a reforma do Palácio Episcopal. Segundo o padre "o bispo transformou a casa em mansão, gastando muito dinheiro, sem considerar as dificuldades da época", denunciou.
SILÊNCIO - Procurado para falar sobre o assunto, Dom Valdir preferiu citar apenas o Cânone 1263 (espécie de lei interna da Igreja) para justificar que como bispo ele pode impor a contribuição. O bispo, bravo com a reportagem, trocou mensagens onde insinua que o assunto é interno e que não interessa a ninguém de fora.
Questionado se poderia responder a algumas perguntas, o líder da Igreja Católica na região, sem cerimônia condicionou a resposta ao direito da reportagem de se intrometer na questão:"Se o assunto em pauta lhe disser pessoalmente respeito, é claro que sim! Se não lhe disser respeito, não há motivos para enviar as perguntas, pois seria intromissão indevida em esfera alheia", atacou.
Com a insistência para que falasse sobre o desconto dos R$ 300 de cada padre e o caso do padre Barrinho, que abusou sexualmente de uma criança de 11 anos, o bispo foi novamente lacônico:"Assunto não lhe diz respeito. Sugiro apenas ler o cânone 1263 do vigente Código de Direito Canônico. Bom trabalho", respondeu.
O tal cânome sugerido pelo bispo afirma que cabe a ele como autoridade eclesiástica, decidir sobre o assunto (a cobrança compulsória). Ele não quis falar sobre o caso do padre Barrinha. O padre foi procurado para comentar sobre a acusação e sua condenação, mas até o fechamento desta reportagem não havia respondido aos questionamentos feitos.Caso se manifeste, o texto será atualizado com sua resposta
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